Sociedade

O silêncio nos condomínios de classe média

Publicado em 10 de junho · Atualizado em 11 de junho

Ilustração abstrata de linhas editoriais

Na terça de manhã, o elevador do Edifício Aurora — 14 andares, 56 unidades, bairro de classe média em Belo Horizonte — sobe sozinho três vezes seguidas. Ninguém cumprimenta ninguém. Na portaria, um tablet registra entradas; o porteiro, que antes sabia o nome dos cachorros de cada apartamento, agora atende chamadas de entrega e verifica QR codes. A mudança parece pequena. Acumulada em centenas de prédios, desenha um padrão: a vida coletiva em condomínios ficou mais silenciosa.

Passei três semanas visitando oito condomínios em BH, Curitiba e Recife. Falei com síndicos, porteiros, moradores de apartamento e de cobertura. O que encontrei não é exatamente solidão — as pessoas têm família, trabalho, amigos fora do prédio. É ausência de vizinhança: pouca conversa no elevador, assembleias com quórum no limite legal, grupos de WhatsApp usados quase só para reclamação de barulho ou vazamento.

Portaria digital, relação analógica

O primeiro fator é tecnológico, mas não no sentido futurista. Apps de condomínio centralizam avisos, reservas de salão e autorização de visitantes. Funcionam bem para logística. O efeito colateral: o porteiro deixa de ser ponto de encontro. "Antes a gente sabia quem estava doente, quem viajava, quem precisava de ajuda para carregar compra", disse Seu Osvaldo, 22 anos de portaria no mesmo prédio em Curitiba. "Agora muita coisa passa direto no celular do morador, sem passar por mim."

Síndicos elogiam a rastreabilidade. Moradores mais velhos reclamam da curva de aprendizado. Uma aposentada em Recife mostrou três folhas impressas com instruções que a administradora enviou — e um grupo de vizinhas que se organizou para ensinar umas às outras no sábado de manhã.

Assembléia como campo de batalha

O segundo fator é político no sentido mais doméstico possível. Assembleias de condomínio concentraram, nos últimos anos, brigas sobre reforma de fachada, uso de área comum para home office, pets no elevador e — com frequência crescente — aluguel por temporada. O ambiente ficou tenso. Quem pode, delega voto. Quem não pode, evita ir.

Vizinhança não nasce de regra de convivência. Nasce de encontro repetido — e o prédio moderno organizou tudo para reduzir encontro.

Em um condomínio de Recife, a administradora contratou mediação externa para uma assembleia sobre obras no estacionamento. Custo extra, mas o síndico disse que foi a única forma de evitar processo entre moradores. "Não é mais conversa de corredor", resumiu. "É quase arbitragem."

Classe média, muros por dentro

O terceiro fator é social. Condomínios de classe média ampliaram a sensação de segurança com muros, câmeras e controle de acesso — e, sem querer, exportaram para dentro do prédio a lógica de desconfiança que deveriam manter do lado de fora. Visitas viram exceção. Crianças brincam menos nas áreas comuns. O salão de festas, em vários lugares visitados, só enche quando alguém aluga para aniversário particular.

Há exceções. No Edifício Aurora, um grupo de moradores retomou café coletivo no último sábado do mês — iniciativa de duas professoras aposentadas. Participam entre oito e quinze pessoas. "Não resolve o prédio inteiro", disse uma delas. "Mas prova que dá para reabrir conversa sem assembleia."

O que muda na prática

Especialistas em urbanismo com quem conversei evitam romantizar o passado. Nem todo condomínio antigo era comunidade. Mas concordam que a infraestrutura atual — digital e física — favorece transação sobre relação. Quando o elevador quebra, alguém precisa organizar reparo. Quando uma idosa cai no estacionamento, alguém precisa avisar parente. Esses momentos ainda geram solidariedade espontânea. O problema é que, fora da crise, o padrão é silêncio.

Para síndicos profissionais, o desafio é equilibrar eficiência e convivência sem virar terapeuta de prédio. Alguns testam enquetes presenciais, hortas compartilhadas, trocas de livro na portaria. Nada disso viraliza — e talvez não precise. Vizinhança se constrói em escala pequena.

Se você mora em condomínio e tem experiência parecida — ou diferente —, conte para nós em contato. Queremos ampliar este retrato com relatos de outras cidades.